quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dá pra ir de bicicleta, mãe?!

A vida simplesmente encanta. E apronta! Imagina o que é você reencontrar uma filha, de quem você não tivesse a menor notícia dela durante dezoito anos, não alimentando a menor esperança de um dia saber algo a respeito, aparecer na tua frente, te abraçar e te chamar de pai! E não acaba aí, não: abraçado àquele corpo, não mais de criança, você sentir outro abraço, um pouco mais leve, de um pequenininho  te chamando de vovô. E isto aos sessenta anos de idade!

Tá bom pra começar?! Foi assim: 
Antes de nos mudarmos pra Angra dos Reis, na virada do século, levamos conosco uma menina de um abrigo em que prestávamos serviços voluntários.  A mãe a havia deixado pra adoção, junto com as duas irmãs, num abrigo e não foi nada difícil nos apaixonarmos por aquela pequenininha, magrela, curiosa, marrenta, de cabelos curtos e cacheados. 

Nos mudamos e lá, em Angra, matriculamos a pequena numa escola municipal e seguimos a vida. Eu a levava de bicicleta pra escola e,  com a sua outra mãe,  brincávamos bastante além de seguirmos com a educação dela e os cuidados que uma criança precisa receber. Ana montou um atelier de cerâmica e fazia transporte escolar dirigindo uma kombi pra ajudar na despesa. Eu dava aula numa faculdade e no colégio naval. Assim, fomos vivendo com pouco dinheiro, devido ao desemprego estrutural - e  sistêmico - à época,  muita alegria e esperanças, principalmente, de um dia, registrarmos a Suelen no nosso nome. 

Passado um bom tempo com a gente, um dia, ela falou assim: “mãe, quanto tempo eu levo pra chegar em Sepetiba de bicicleta?”. Sua tia e mãe biológica morava naquele bairro, da zona oeste carioca. Nos apavoramos com a possibilidade de aquela criança, um dia, por conta própria e sem que nos nos déssemos conta, simplesmente, 

de
     sa 
          pa
               re
                    ce
                         sse 

no mundo. 

Entramos em desespero e em contado com o pessoal do abrigo porque entendemos ser melhor levar a criança de volta. Trouxemos a Suelen  de volta para o Rio. Tristes, voltamos a nossa vida sem a nossa filha por perto. Em Angra, sozinhos, literalmente, no meio do mato, sem amigos ou parentes, com nossa condição financeira depauperada, sem carro – já que precisamos vendê-lo – nos isolamos dos nossos conhecidos e familiares, por um bom tempo. 

Pior: além da telefonia de longa distância ser péssima na época, ela era muito cara e não tinha as facilidades da internet de hoje. Tomada por uma depressão profunda, Ana resolve voltar para o Rio e passa a procurar uma casa pra gente se mudar enquanto eu fico, sozinho, em Angra, tentando vender a casa que construímos. 

Voltamos pro Rio e retomamos nossa vida dentro das possibilidades de um casamento sem filh@s humanos, porém, com nossos gatinhos e cachorros que aprendemos a amar e trouxemos conosco. Por causa de uma infertilidade da minha parte, não havia conseguido gerar uma criança com a mulher que eu amo o que, com o tempo, passou a ser a tônica destes altos e baixos pelas quais passamos e temos passado nestes quase vinte e cinco anos de convívio, somados a outros fatores, claro! 

E aí, contribui o Destino com os seus sortilégios, como diria Machado de Assis: há oito anos, veio morar em nossa rua, numa casa bem próxima, uma família com uma menininha que nos adotou como “segunda mãe e segundo pai” dela: a Julia Robert. Vida que segue, agora, com o carinho desta pequena, que vai fazer agora onze anos, que todos os dias, antes de ir pra escola, cedinho, manda uma mensagem de amor dizendo que nos ama, pedindo a bênção. 

Tem mais: em um momento em que estamos vivendo o olho de um furação no Rio de Janeiro, em se tratando do quadro caótico em que nos encontramos, com o salário dos servidores públicos atrasados e sem a menor previsão de melhoria, Ana Paula tentando concluir sua monografia de conclusão de curso e eu precisando escrever o projeto pra qualificação no doutorado, vivendo uma de nossas maiores crises no casamento, ressurge a Fênix. 

Deus joga dados com o universo, sim! 

O universo conspira junto ao Caos. 

Deusas e Deuses, jocosos, brincam e zombam dos mortais. 

A Daniele, minha cunhada, chega e diz assim: sabe quem eu encontrei na creche do Davi?!.............................


É que o Arthur, meu neto (isto mesmo: MEU NETO), de 3 aninhos, ligado no 220v, bem magrinho, tipo a mãe quando criança, estuda exatamente na mesma creche que o meu afilhado, Davi. E isto, dezoito anos depois de ela ter “fugido pra namorar”, como ela pediu contar esta história. Agora, de dois com seus cachorros e gatos, ficamos com um neto e duas filhas. 

Suelen é uma mulher guerreira que soube, passados dezoito anos, "sempre pensando na gente" , desenvolver autonomia, esperteza, inteligência e sagacidade.  Começou a trabalhar bem cedo, com seus onze anos e jamais teve a aceitação de sua mãe que, segundo ela, deu uma surra nela, quando ela voltou dizendo que ela não tinha nada que ter fugido da gente. Mas, se não fora isto, como ela poderia ter tido todas as condições que a levaram a ser protagonista ainda bem criança?! A vida é uma escola que suplanta, em muito todas as outras escolas. 

Amamos demais e, por isto, não deixaríamos aquela criança passar necessidades físicas ou emocionais. Quando ela não está trabalhando, ela vem nos ver, trazendo o nosso netinho na cadeirinha de sua bicicleta e ele adora brincar no quarto dos brinquedos. Um dia destes, fez o almoço pra mãe, que é vegetariana. Uma delícia de estrogobofe (como ela disse) de abobrinha. Ana até jantou rs. E, mesmo nos dias em que ela trabalha, fala conosco de manhã e de noite. É uma outra fase de nossas vidas simplesmente apaixonante e estamos surpresos com tudo isto que está acontecendo conosco. 

Toda hora me lembro de uma frase da Clarice Lispector em que ela diz que “a vida não é um mistério a ser explicado e, sim, um milagre a ser vivido”. O delgado fio de areia da ampulheta caindo, sem parar, revela o que faz sentido na vida, o que merece e tem que ser vivido com toda a potência: o momento presente, que é o que existe.

sábado, 29 de abril de 2017

Crônicas do nosso tempo I - sobre as cabeças os helicópteros

“O presente é tão grande, não nos afastemos...”.  
E nestes tempos bicudos, “considero”, com o poeta, “a enorme realidade”. Tão grande que dá até pra ver beleza. Nos detalhes. Bonito de se ver aquela companheirada toda ali na frente da alerj juntinha, alegre, se abraçando velhas amigas e velhos amigos. A moça bonita disse que aquilo ‘ta virando um social. É só lá que a gente encontra quem a gente não tinha como encontrar. Mais do que possível, o impossível fica feito. As falas, os gestos, os refrões. "O povo unido é povo forte..." Do carro de som do meu sindicato. As bandeiras dançavam na frente do carro de som. 
Os fotógrafos agrupavam e reagrupavam. A exposição agrada. Perigosamente agradável no controle social.  "...não teme a luta, não teme a morte!" Meus colegas seguram a enorme faixa vermelha contra mais uma do pacote de maldades: o fim dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras. Logo atrás, umas meninas  muito alegres com as flâmulas do S E P E: eu nunca tinha visto tanta beleza em uma manifestação. 
Além das faixas, cartazes, bandeiras: as franjas, o desenho das letras, as cores, as formas. E o melhor, a legenda só fazia sentido se as moças ficassem sempre juntinhas. E esta foi a instrução, dentro do ônibus, ao perguntar se havia alguém ali  pela primeira vez em uma manifestação. Fiquem sempre juntos. Não se afastem. Bela visão perpendicular para o alto da igreja da matriz, lá de onde a polícia, da outra vez, instalou os snipers 
Uma explosão. Morteiro?! Olhei pra trás. Era bomba! Atiravam pelas nossas costas. Atiravam em cima do carro do som. "Não acabou! Vai acabar..." Olhei pro companheiro e o rosto dele estava tenso. Calma! Fiquem juntos e não corram! A fumaça ficou espessa. O ar faltou. A colega molhou meu lenço com o leite de magnésia. Nossa cara ficou branca. O passo apressou. O choque nos empurrava. E mais bomba. E mais gás. Atrás, uma fumaça espessa. O primeiro contêiner.
Daí por diante foi uma tentativa atrás da outra de reagrupar em meio às dissipações necessárias. Ainda no ônibus, a ordem de voltar juntos. Todos. O fogo é bonito. 
Quando criança, eu me encantava com as fogueiras. Menino, não brinca com fogo que mija na cama! 
Do alto, do céu escuro pela noite densa de chuva fina, helicópteros nos iluminavam com os holofotes. Controlando os agrupamentos. Voando baixo. 
A fumaça densa na noite densa nas explosões das bombas. Dos ônibus incendiados.
Ágil, com presteza mecânica e humana, o bombeiro se movimenta no esquicho das mangueiras que chiam na ardência do fogo. Mais explosões e o choque, de motocicleta, nos cercando.
Na garupa, o lançador de bombas. Um pelotão passou e um policial batia, insistentemente, no coldre, fazendo barulho. Não precisavam mais dos escudos?! O preto das fardas. O preto dos ninja. O preto dos bloc. O preto da noite. E da fumaça. O rapaz grande caiu. Despencou. Ao lado dele uma bomba explodiu bem na cara. Soro rápido lançado no rosto. Levanta e corre. Puxei minha colega pela mão e corremos. Pra voltar pelas costas e resistir.  Lenços coloridos, botas de couro, bandanas, luvas, cachecóis. Um estilo?! Moda?! Táticas, estratégias, esperteza? A indústria cultural se apropriando na contracultura?! Pode ser... 
O futuro é tão incerto. Não nos afastemos. Vamos de mãos dadas. 

Julio Roitberg, 29/04/2017

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

...


                                           Fotos de JRoit, em 7/11/12

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

É therna


Era assim…

Hera, sim!

Eras assinalada

Grudada

Acima do muro

A sina alada

Alça que se lança

Além do muro

Pra livre trepadeira

Derradeira hera, sim
ples
mente

Além das pedras

Além do muro

Era assim...
                                                                                                 
                                                                                                                                      Julio Roitberg (03/02/2012)

domingo, 13 de janeiro de 2013

Um tempo redondo para a narrativa transcontinental de Mia Couto




Julio Roitberg, 06/01/2012

Diz Roland Barthes, em S/Z (1970) que “há por um lado, o que é possível escrever e, por outro, o que já não é possível escrever: o que está na prática do escritor e o que se afastou dela.” (p. 12). Aquilo que criou significação para Mia Couto, fugindo a toda possibilidade de leitura viciada, arquivada em nosso “museu do imaginário”, entre tantas metáforas petrificadas, é o material, ardente de vida, deste  seu livro. A matéria de que lança mão é o  “escrevível”. Questiona, implica, evoca, invoca e, finalmente, convoca, falando, com toda propriedade, atestada, tanto, pelo reconhecimento do conjunto de sua obra, assim como por uma escritura que se apresenta em uma sintaxe direta, lógica e gostosa de ser lida.
Em “E se Obama fosse africano?”, as memórias e as lembranças fundem-se naquilo que o autor nomeou por “interinvenções”, neologismo que congrega intervenções e invenções realizadas em diversos momentos e lugares fluindo em uma temporalidade mítica. Suas narrativas, mescladas à prosa poética - “ensaios”  - dão suporte a um conjunto de textos que deambulam, rosianamente, na “terceira margem”, ao mesmo tempo, em que não se afasta da prática, da proposta de uma intervenção social.
Em “Os sete sapatos sujos” (p. 25-47),  denuncia a vitimização, o coitadismo, a inércia, a esquecimento voluntário, a justificativa pelas ações dos outros, a culpabilização através do destino, a atávica presença das forças ocultas e da magia, questionando “o que  preciso mudar dentro e fora de África? (p. 27), a fim de  não continuar a atirar poeira para ocultar responsabilidades”.
Os “sete sapatos” -, cujo abandono na soleira da porta mostra-se imperioso, em função dos novos tempos, para que se possa entrar neste futuro que todos querem, descalços de preconceitos, são enumerados e sequenciados, assim: Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas; Segundo sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho; Terceiro sapato: o preconceito de quem critica é um inimigo; Quarto sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade; Quinto sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências; Sexto sapato: a passividade perante a injustiça; Sétimo sapato: a ideia de que para sermos  modernos temos que imitar os outros
Impregnando – e mesclando – a poética brechiana com o convite a uma prática que leve à emancipação, em consonância com o nosso maior educador, a leitura cinematográfica deste livro projeta-se - e lança o leitor!- em uma tela, por meio das “conversas”. E é este andamento conversacional que balança a viagem entre as narrativas. Este “saber-fazer”, “saber-dizer”, “saber-ouvir” (LEAL, 2006, p. 25), enquanto modo de escrituração, traduz, atualiza, exatamente porque suas representações assemelham-se mais à contação de estórias, abrindo larga distância das narrativas lineares, enrijecidas na linearidade do espaço e do tempo. Para ouvir Mia Couto e suas narrativas transcontinentais, bem além das suas Áfricas, pede-se um tempo redondo, bem mais largo que este que nos obriga a cessar a leitura, a esquecer das lembranças, a interromper a conversa. Porque o dia amanhece.
Para Leal (2006), citando Lyotard (1993)
Os relatos trazem uma “função letal”: nessa mistura, tempos são apagados, perdidos, mesmos porque toda narrativa existente, contada, é sempre presente, atual. Com isso, funda-se pragmaticamente, [...] uma temporalidade simultaneamente “evanescente” e “imemorial”, constituída no “ato presente que desdobra, cada vez, na temporalidade efêmera que se estende entre o eu ouvi dizer e vocês vão ouvir”. (LEAL, 2006. p. 25)
Incendiando o horizonte além da fronteira transcontinental: das savanas africanas para o mundo – com um recorte especial para o Brasil de Jorge Amado e de Guimarães Rosa -,  possibilita, em sua prosa conversasional, uma viagem entre o épico, o lírico e o dramático (STAIGER, 1975), abrindo as trilhas de acesso às eternas lembranças.
Este deslocamento espaço-temporal, entre os gêneros poéticos, acompanha a compreensão de Mia Couto sobre as línguas, “[...] as mais poderosas agências de viagens, os mais antigos e eficazes veículos de trocas” (p. 174), o que é ilustrado em “O incendiador de caminhos”: todos nós já conhecemos os mais diversos lugares e paisagens, independente de termos embarcado em um avião e, rapidamente, estarmos em um outro continente.
Não existe geografia que nos seja exterior. Os lugares – por mais que nos sejam desconhecidos – já nos chegam vestidos com as nossas projecções imaginárias. O mundo já não vive fora de uma mapa, não vive fora da nossa cartografia interior. (p. 74)        
Dos mais remotos desertos, às mais impenetráveis florestas, anteriormente transpostos e povoados pela imaginação de nossos antepassados que, “antes de chegarem ao destino faziam deslocar a sua imaginação coletiva.” (p. 74), “mesmo parados, partimos à procura do que não podemos ser.” (p. 76).
Escultura Ujaama, Makonde, em eboni, 25” (Tanzânia, 1900-1925)
O acesso à zona de embarque – sem a necessidade do check in é permitido/facilitado pelo exercício da escrita, da escuta e da leitura, atos que não se restringem ao que se pretende por hegemônico. Lemos, escutamos, escrevemos bem mais com outros códigos, além dos preponderantes. Os sinais deixados nas cavernas pelos nossos ancestrais que, em nossa genética, carregamos,  esculpiram nossas memórias, através dos tempos.

Jogando com a realidade e a mímesis, assume que “a realidade é uma construção social e é, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira.” Em função desta armadilha, “nós não temos sempre que a levar tão a sério.” (p. 99)
E este tempo não linear, “redondo” (p. 123), africano, fabular, narrativo, longe da racionalidade cronológica, pode ser que tenha a ver com a capacidade, segundo o autor, de, ao atualizarmos nossas narrativas, presentificando-as, inventarmos os nossos cotidianos. Mia Couto escreve de um lugar em que as ideias de pessoa, de individualidade são bem diversas nas línguas do Sul da África (p. 80-81). Para Leal (2006) a estrutura narrativa “só tem sentido quando em relação a um contexto, entendido tanto como uma realidade cultural, um repertório de textos e gênero e a um processo comunicacional específico.” (p. 26). E, nas culturas das diversas Áfricas, cenário-processo-personagem do livro de Mia Couto:
Nós somos como uma escultura maconde[1] uja-ama[2], somos um ramo dessa grande  árvore que nos dá corpo e nos dá sombra. Distintamente daquilo que é hoje dominante na Europa, nós olhamos a sociedade moderna como uma teia de relações familiares alargadas.” (p. 82).
Bibliografia

BARTHES, R., avaliação. In: BARTHES, R. S/Z. Lisboa: Edições 70. 1970. p.11-12.
COUTO, M. E se Obama fosse africana? (ensaios). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
LEAL, B. Saber das narrativas: narrar. In: GUIMARÃES, C.; FRANÇA, V. (Orgs.) Na mídia, na rua: narrativas do cotidiano. Belo Horizonte: autêntica, 2006. p. 19-42.
STAIGER, E. Da fundamentação dos gêneros poéticos. In: STAIGER, E. Conceitos fundamentais de poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 160-179.



[1] Povo do norte de Moçambique
[2] “Família alargada.” Por extensão, denomina um tipo de escultura em que figuras várias se aglomeram de forma entrelaçada simbolizando a unidade familiar.” Reprodução em escultura em http://crocolux.com.Art Acesso em 06/01/2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Entre comunidades e favelas: as intencionalidades discursivas





Como a pauta da matéria de O Globo, de 11/11/2012, deslustra um dos bairros da Zona Oeste do Rio, penso naquilo que a mesma trata por “carência” nesta e em outras áreas. Se o que se pretende afirmar é um fato, ele se dá em função da inoperância do estado naquilo que lhe compete, apesar de todo o discurso que tenta esvaziar as suas responsabilidades, fazendo com que grande parte dos serviços básicos ou não existam ou funcionem muito mal. 
Diz O Globo, de 11/11/2012
“Carência de serviços públicos influi em voto na Zona Oeste
Na Zona Oeste, o voto está restrito a poucos candidatos. A região, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), possui a maior área sob o domínio da milicia no Rio. Dos dez locais de votação com a maior diferença entre o primeiro e o segundo colocado, sete estão nessa área da cidade. O campeão de votos em uma única localidade é de Sepetiba, no extremo oeste do Rio. Em quatro dos cinco locais de votação do bairro, o candidato eleito Willian Coelho (PMDB) venceu com percentuais que variaram de 30% a 56% dos votos. Durante a campanha, Willian teve apoio maciço do deputado federal Pedro Paulo (PMDB), coordenador da campanha do prefeito Eduardo Paes.” (O Globo, 11/11/2012, p. 10)
Coreto construído em 1903

Fazer uma análise de dados estatísticos que recortam tão somente a política e a economia para explicar a diversidade de qualquer que seja a região, pós processo eleitoral é, no mínimo reducionista. Se não pensasse nas intencionalidades.

E as demais produções em Sepetiba e entorno? As lentes socioeconômicas pouco contribuem na amplitude das condições de compreensão das realizações cotidianas. Elas são inoperantes quando não dialogam com as diversas manifestações culturais e de toda a história da localidade além das aparências. E nisto percebo, também, um forte antagonismo.
Como pensar as ações de um Ecomuseu, em Sepetiba, que tem por marco doutrinal o direcionamento de suas ações ao patrimônio material e imaterial, dando suporte à recriação histórica das memórias e culturas local,  interagindo com todas as demais contribuições que não desprezam a visão total global/local blindando seus habitantes dos centralismos perversos, que levam às delimitações do “cada um no seu quadrado” já tão massificados pelo “eu só quero é ser feliz...”?
Temperos do bahiano, na feira de Sepetiba
Mesmo duvidando, às vezes, de meu ceticismo, entendo como inconsistente a responsabilização das igrejas locais e seu protagonismo no contingente expressivo de votos nos políticos citados, apesar de não me entender como religioso.
Lembro-me de que muitos daqueles que me entregaram material de propaganda, durante o período eleitoral, de “seus” candidatos, quando eu recusava dizendo que havia “fechado com ele” – com o “meu” candidato, declaravam, baixinho, sua intenção de voto, aliás, bem diferente do que a matéria jornalística apresenta, ingenuamente ou, o que é pior, desprezando a contribuição de autores voltados aos “meios e às mensagens”.
Comissão de Desenvolvimento 
Ecomuseu Sepetiba
Aqui, sim, enxergo brechas por onde se poderia avançar na busca pela construção de uma localidade onde a tranqüilidade permitida pelo distanciamento do centro, avance na construção de um cenário para o desenvolvimento nos quesitos necessários à cidadania plena e de direito, rejeitando a lógica dos centros privilegiados que insistem na distribuição de bens, serviços, cultura e informações.

Ao contrário, ao se fortalecer as diferenças locais e a manutenção dos laços universais em um mundo com suas fronteiras cada dia mais esgarçadas, ou, mantendo a metáfora, “diluídas”, caminha-se em direção a uma sociedade menos injusta.
Matérias com teor semelhante não têm como mencionar – tampouco, dimensionar - as resistências a este “olhar” generalizante sobre o que os agentes do poder, utilizando-se da mídia, persistem, caminhando à margem da Constituição.
Na crença de sua eterna invulnerabilidade e detentores de amplos poderes, esforçam-se em criar, no imaginário, estratégias que lhes garantirão, encastelados, sua permanência..
Entendendo existir tal correnteza, que arrasta um mar de opiniões, a mídia massiva constrói discursos deslocando significados através das palavras.
Pescaria ao entardecer 
na Praia de Sepetiba
Acordos entre os empresários, em apoio aos seus candidatos, estipulam as pautas, formatos, discursos entre as TVs, rádios e jornais, através dos editoriais.
Como a extinção das palavras precede à materialidade, um destes deslocamentos de significado é promovido pelo esforço na substituição compulsória de alguns vocábulos que, historicamente, têm nomeado as coisas.
O substantivo “favelas”, por exemplo, tacitamente aceito e incorporado por muito, pelo “sinônimo” comunidades, exige atenção, já que as palavras criam identidades!
Muito além do desamparo proposital, colado ao adjetivo “carente”, conforme a matéria, ele facilita a ação daqueles que pretendem se beneficiar, apostando em suas crenças na desinformação generalizada e na tal correnteza informacional. Esquecem-se da força da história, que, se sobrevive aos tsunamis, quanto mais às ações políticas.
Colônia de Pescadores Z15. Sede 
do Movimento Ecomuseu Sepetiba
Decoração do Bar Conexão, 
na Praça Oscar Rossini
Muito além das pretensões individuais, o bairro de Sepetiba, limítrofe entre Guaratiba e Santa Cruz, não bastasse o seu passado historicamente ligado à presença da Família Imperial, ao trânsito de mercadorias, à produção de bens e serviços, às fazendas e responsabilidades com o desenvolvimento da região e de todo o estado, aproveitando as intencionalidades do poder instituído, atualmente, sedia um ecomuseu, um dos poucos existentes em todo o Brasil

Arduamente organizado pela Bianca  Wild e pelo Bruno Cruz, companheiros incansáveis, à frente de uma Comissão de Desenvolvimento, da qual eu faço parte, junta-se, no Rio de Janeiro, aos demais existentes -  apenas três!. Sua visão antropológica, histórica e sociológica, fruto de vivências, estudos e pesquisas têm-se mostrado suficientes para sua capacitação na coordenação do Ecomuseu de Sepetiba.
Assim como a matriz, o Noph - Ecomuseu de Santa Cruz, dentre suas funções está a apropriação cultural da região pelos seus habitanes, assim como a patrimonialização do espaço vivido, afirmando a subjetividade e a singularidade da comunidade local, acrescentando a busca pela coesão social.
Talvez esse associativismo em regime de cooperação e colaboração, agindo em parceria com as escolas do entorno, e demais espaços de educação formais e não formais, possa dinamizar o surgimento de um ecomuseu pedagógico.
Seu Erasmo
Os planos de ação do Ecomuseu de Sepetiba não restringem às culturas locais, porém, interconectadas, através das redes, às demais realidades planetárias existentes, resultado e motivo das transformações sociais. E isto propicia um olhar “além das sombras embandeiradas que separam os quintais”, como cantou o Raul, além do que se pretende construir como realidade. Penso ser necessária esta amplavisão, para uma análise sobre liberdade associada à política, como pretendeu a matéria. Aspectos importantes da cultura e da história da região foram lançados na periferia do debate entre os entrevistados, como em uma correnteza de informações.


BARRETO, Raquel Goulart. O discurso da "inclusão". In: Discursos, tecnologias, educação. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009. p.39-51
BERINO, Aristóteles de Paula. Território. In: A economia política da diferença. São Paulo: Cortez Editora, 2007. p. 29-63.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
KOCH, Ingedore Villaça. Discurso e argumentação. In: Argumentação e linguagem. 8ª edição. São Paulo: Cortez Editora, 2009. p. 22-23
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,  2009.
OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Centro e periferia: a cidade como espaço educativo: processos de periferização e centralização cultural. In: A cidade como espaço educativo. Salto para o futuro, ano XVIII, boletim 03, abril de 2008: Secretaria de Educação a distância, MEC, 2008. p. 27-31.
SANTOS, Milton. A transição em marcha. In: Por uma outra globalização. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record. p. 141-174.